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Segunda-feira, 02 de Janeiro de 2012

Realismo x Romantismo

Literatura Portuguesa

Análise do Soneto:

A um Poeta

Antero de Quental

Tu que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno.

Acorda! É tempo! O sol, já alto e pleno
Afugentou as larvas tumulares...
Para surgir do seio desses mares
Um mundo novo espera só um aceno...

Escuta! É a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! São canções...
Mas de guerra... e são vozes de rebate!

Ergue-te, pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate!

Análise:

O Romantismo em Portugal era uma estética literária de aspecto obscuro, seu tom pessimista devia-se ao fato de os autores conferirem às suas obras um exagero tal que tais temáticas, já cansativas e agonizantes, começaram a ser combatidas e rejeitadas por uma revolução intelectual portuguesa, era a ascensão de uma nova corrente literária: o Realismo, este, mais vinculado às características físicas, retratava a realidade através da observação, análise e crítica da vida cotidiana, bem como de grupos sociais (como a Igreja, por exemplo), muitas vezes através de ideias abstratas, menção de lutas interiores, etc.; (como bem fazia Antero). Os autores realistas desfaziam o ideário romântico quando buscavam “fotografar” a realidade, as pessoas, os acontecimentos como são. Neste contexto, podemos dizer que o próprio título do soneto em questão já é sugestivo, pois talvez Antero não estivesse referindo-se “à um poeta” específico e sim à uma nova estética poética, um novo estilo de fazer poemas, com uma nova temática, uma nova versão. Há um “espírito sereno” que é evocado no soneto, este mesmo “espírito” que dormita é convocado à despertar; de acordo com o contexto histórico em que este soneto fora produzido, podemos dizer que este “espírito” é o poeta realista que, durante muito tempo, “posto à sombra dos cedros seculares” (2º verso da 1ª estrofe), permaneceu calado, adormecido, “longe da luta e do fragor terreno” (4º verso da 1ª estrofe), como bem explica o poeta. Mas por que Antero usa justamente essa expressão? “Longe da luta e do fragor terreno”? Ora, porque ele acreditava que a vida não seria aquele mundo utópico, idealizado pelos românticos, mas um lugar de luta, um cenário de diversas problemáticas sociais, que precisavam ser questionadas, criticadas, avaliadas. Mas o “poeta” estava longe! É nesta ânsia, nesta sede de questionamento e crítica que Antero invoca (ao poeta realista): “Acorda! É tempo! O sol já alto e pleno...” (1º verso da 2ª estrofe), ou seja, ele está dizendo que o momento chegou, o “sol já alto e pleno” figura o momento histórico que estava despontando, para representar o clímax do confronto inicial entre o Romantismo e o Realismo. Ele diz ainda que este “sol, já alto e pleno”, ou seja, este clima de tensão, este confronto de ideias, “afugentou as larvas tumulares” (2º verso da 2ª estrofe), esta expressão “larvas tumulares” faz uma referência direta ao Romantismo, visto que este tom sepulcral e a noite escura e sempre sombria eram características românticas. O Romantismo estava aos poucos sendo banido pelo Realismo. Para a substituição ser completa faltava “só um aceno” (4º verso da 2ª estrofe).

Antero representa bem esta realidade de conflito, de revolução, ao dizer: “São teus irmãos, que se erguem! São canções... Mas de guerra... e são vozes de rebate!” A palavra destacada talvez esteja fazendo menção à carta de rebate que Antero enviara em resposta às provocações de Castilho na questão Coimbrã. Na última estrofe, Antero ainda solicita ao poeta realista que se erga, o considera o soldado do Futuro, ou seja, exprime aí o seu desejo de que o realismo consolide-se no futuro, como um soldado que irá justificar, questionar, explicar, criticar e combater diversas deficiências e patologias da sociedade como um todo, buscando retratar a realidade como ela é.

Análise feita por:Lorena Ribeiro Damasceno – Estudante de Letras da Faculdade Saberes – Equipe Sindinotícias.

Foto: meramente ilustrativa/ Internet

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