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Sexta-feira, 06 de Janeiro de 2012

Vai acabar ou vai continuar o Zoológico nas eleições 2012?

Após o JORNAL SINDINOTÍCIAS esclarecer que o eleitor pode votar em um candidato e, sem querer, acabar elegendo outro (clique aqui e leia a matéria), trouxepara debate outros absurdos do Sistema Eleitoral Brasileiro para avaliação de nossos leitores.

POR QUE CERTOS CANDIDATOS SÃO CHAMADOS DE MULAS?

A mula é um animal conhecido por ser um bicho teimoso, que carrega alguém nas suas costas. Em virtude disso, no meio político, é chamado de “mula” o candidato que está carregando outro. Ou seja, o candidato sem a menor chance de se eleger, pede votos para si próprio, mas que na verdade são para eleger outro candidato, “aquele que está sendo carregado”.

Esses candidatos aceitam serem“mulas” dos outros, pedem votos para si próprios, mas estão elegendo outros candidatos. O eleitor está votando em um, mas dando voto para outro.

QUAIS SÃO OS TIPOS DE “CANDIDATOS MULAS” QUE EXISTEM?

MULA-BESTA:o candidato que não conhece as regras eleitorais e acredita que, tendo sido convidado ou aceito para disputar a eleição por um partido ou coligação, se ilude, acha que possui chance de vencer. Esse candidato é também uma vítima de sua vaidade ou falta de conhecimento. Não percebe que os comandantes do partido lhe atraíram somente para carregar nas costas outros candidatos que possuem chances. Esse tipo de candidato age de boa-fé, e quando pede votos, acredita que possui realmente chances de vencer. É “teimoso como uma mula”. Muitos desses candidatos são pessoas humildes e trabalhadoras, gastam suas economias nas eleições. Muitos são “marinheiros de primeira viagem.” Quando sai o resultado, ajudaram a eleger os comandantes do partido ou coligação. São “cabos eleitorais” de primeira, que ao invés de ganharem para trabalhar, estão pagando para eleger os outros. Embora seja incrível, há mulas dessa espécie que disputam sucessivas eleições, carregando outros nas costas e pagando por isso. Psicólogos procuram explicar que certas pessoas possuem necessidade incontrolável de chamar a atenção e de receberem elogios daqueles que montam nas suas costas.

MULA-DOMADA:O que conhece as regras do jogo e sabe que não possui chance de vencer, mas se conforma. Aceita ser “mula”, para ajudar a eleger os comandantes do partido ou coligação. Esse tipo de “candidato mula” se divide em outras espécies.

QUAIS SÃO AS ESPÉCIES DE MULA-DOMADA?

As mulas domadas dividem-se em:

MULA OPORTUNISTA:O que aceita carregar os outros nas costas em troca de dinheiro ou de favores futuros, por exemplo, ocupar cargos públicos comissionados ou na estrutura partidária. Esse tipo de “mula” pode ganhar dinheiro para fazer campanha, com o intuito de “fazer legenda” para os comandantes do partido ou da coligação. É o “cabo eleitoral de luxo”.

MULA INVESTIDORA:Esse candidato sabe que é “mula”, mas está interessado em “lançar seu nome na rua”. Seu objetivo é se entrosar e fazer seu nome aparecer e se tornar popular. Quer participar da política junto com lideranças, visando se tornar popular, para ser eleito não na primeira eleição (pois sabe que não possui chance), mas em eleições futuras. Procura alavancar seu nome.

MULA PARTIDÁRIA:Esse tipo de candidato é ideológico. Suas intenções são ajudar os ideais e projetos do partido, ou mesmo dos outros candidatos que ele sabe que são os que possuem, na verdade, chances de ser eleitos. A “mula partidária” não deveria se chamada de “mula”, pois é uma pessoa de boa-fé e inteligente, quando carrega alguém nas costas, está carregando seus ideais e projetos.

POR QUE EXISTEM “CANDIDATOS MULAS”?

Na eleição proporcional, ou seja, para VEREADORES E DEPUTADOS, a quantidade de candidatos que são eleitos depende de quantos votos o partido ou a coligação recebe. Os votos são computados primeiro para o partido ou coligação, para definir quantas vagas cada um terá direito a preencher (cociente partidário). Depois, quem as preencherá são os mais votados dentro do partido ou da coligação. Por esta regra, que vigora atualmente, somente os candidatos com potencial de ficar entre os mais votados no partido ou coligação estão realmente disputando, os outros são chamados de “mulas”.

Esse é o motivo de que os resultados da eleição sempre trazem muitos candidatos com poucos votos. Mas se somarmos os votinhos de todos os candidatos, percebemos que são esses votinhos que dão condições do partido, ou coligação, eleger mais pessoas.

Cada cadeira exige do partido ou coligação uma quantidade de votos. Os candidatos eleitos, sozinhos, não tinham essa votação. Os votos que faltavam vieram das “mulas”...

Um candidato sozinho dificilmente se elege, pois cada cadeira exige uma quantidade de votos que a maioria esmagadora dos candidatos não possui condições de conquistar sozinho. É preciso ser um “elefante” para ser eleito sozinho.

EXISTEM “CANDIDATOS MULAS” QUE VIRAM “ZEBRAS”?

Toda mula possui o sonho de virar zebra. Em um partido ou coligação, não se sabe de antemão quantos serão eleitos. O sistema eleitoral brasileiro possui possibilidades de transformar mulas em zebras. Se em um partido ou coligação todos os candidatos “caciques”, grande conquistadores de votos forem eleitos, podem sobrar vagas a serem ocupadas por candidatos com votação menos relevante no partido ou coligação. Ou seja, sobrem vagas para as “mulas”.

Considerando que a eleição se faz pela quantidade de votos das coligações e dos partidos, um candidato “mula”, com pequena quantidade de votos, pode acabar sendo eleito se o partido ou coligação fizer muitas cadeiras. Neste caso, ele poderá, por pura sorte, e muita sorte mesmo, ser eleito, sendo “a mula mais votada dentre as mulas”.

AS MULAS UNIDAS CONSEGUEM ELEGER UMA ZEBRA?

As regras eleitorais brasileiras geram situações curiosas. Alguns partidos ou coligações, que não possuem candidatos fortes, decidem lançar apenas candidatos fracos, mas que tenham um razoável potencial de voto. Assim, uma coligação de 4 partidos, por exemplo, pode lançar, por exemplo, 60 candidatos que tenham em média 2 mil votos para deputado estadual, o que é muito pouco. Mas, em um Estado como o Espírito Santo, será suficiente para atingir o quociente eleitoral e fazer jus a uma cadeira. Muitas mulas unidas elegem uma zebra. Difícil é dar a sorte de ser justamente essa zebra!

RAPOSAS, LOBOS, CORDEIROS E ELEFANTES NA POLÍTICA?

Os partidos precisam permitir a filiação constante de novos candidatos. As raposas que comandam os partidos sempre esperam que esses forasteiros sejam boas mulas, e não ameacem os parlamentares que comandam o partido. No entanto, muitas vezes esses forasteiros são lobos que fazem acordos com as raposas, e passam a pilotar os partidos contra os interesses dos parlamentares do partido. Esse era o principal motivo do “troca-troca” de partido: toda vez que o parlamentar perdia o apoio da direção partidária, procurava se abrigar em outro partido onde pudesse continuar mandando.

Se você é um cidadão que possui chances de ser um dos mais votados no partido ou na coligação, você precisa entrar em acordo com o comando partidário. Afinal, não vão querer dar um espaço a um forasteiro e retirar de outro que “está dentro”. Salvo se você agir como um lobo e se conchavar com a direção partidária, só vão te chamar se não representar ameaça aos candidatos que comandam o partido, afinal, eles precisam das “mulas”.

Mas pode acontecer uma exceção: as lideranças partidárias sub avaliarem o potencial de um candidato e permitirem que ele entre no partido sem fazer acordos. Ou seja, acreditam que o candidato é fraco (é mula), mas o candidato surpreende nas urnas. Esse é o lobo vestido em pele de cordeiro!

Também, pode acontecer de uma liderança muito forte, fortíssima, um verdadeiro “elefante” trazer votos para o partido que não apenas elejam os preferidos, mas ajudam a eleger outros. Esses “elefantes” todo partido quer, pois se ele, sozinho, tiver condições de atingir o quociente eleitoral (o número necessário para eleger um parlamentar), os votos que sobrarem ajudarão a eleger os outros candidatos. Elefantes na política são coisas raras (não existem muitos “Clodovil” e “Enéas” por aí...)

ELEIÇÃO É LOTERIA OU É JOGO DE CARTA MARCADA?

O fato de haverem “zebras” significa que qualquer pessoa, teoricamente, pode ser eleita, embora com chances insignificantes. De forma que não seria possível estimar antecipadamente quem possui chance de ser eleito. Essa impressão fica ainda mais forte quando vemos um “cacique”, às vezes o mais votado em determinada eleição, não ser eleito por seu partido ou não atingir o quociente eleitoral. Isso pode dar a impressão de que a eleição é uma loteria.

Se é verdade que não se sabe antecipadamente quem irá ganhar ou perder a eleição, existe uma outra verdade: o sistema eleitoral é perfeitamente previsível, é um jogo de carta marcada. A verdadeira disputa se concentra entre uma minoria de candidatos: aqueles que as “mulas” sempre carregam.

Esse sistema possui um vício grave à sociedade, tolerado pelas autoridades em virtude de ser lei, que é a permissão de coligações nas eleições proporcionais. Não é possível dizer com margem absoluta quem possui chance e quem não possui, mas é possível apontar os vícios do sistema e como ele funciona. A maioria dos eleitores não conhece o zoológico das eleições.

 

 

 

 

Assina esta matéria: Luís Fernando Nogueira Moreira /  07 de Junho de 2011

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